PERFIL DA ESCOLA: LICEU CORAÇÃO DE JESUS

janeiro 3, 2011

A mais antiga escola Salesiana do Estado de São Paulo, que atende hoje a menos de 10% do público de seu auge, mobiliza a mídia e ex-alunos, corre atrás de parcerias, busca receitas alternativas e amplia os serviços. Tudo para manter as portas abertas de um belo e privilegiado espaço no centro da Capital e manter viva uma proposta humanista de ensino, à espera da revitalização da área e da chegada de novos moradores.

 Por Rosali Figueiredo Fotos: João Elias

Uma Ação de Graças reuniu ex-alunos, estudantes, pais e familiares ligados ao Liceu Coração de Jesus no último sábado de novembro de 2010, em comemoração aos 125 anos da escola encravada nos Campos Elíseos, área central de São Paulo. Foi uma homenagem singular, pois a data festejou também um ano da intensa mobilização que a instituição e ex-alunos empreenderam em defesa do mais antigo colégio Salesiano do Estado de São Paulo, que chegou a ter três mil estudantes nos anos 60, concluiu 2010 com apenas 278 matriculados e tornou-se “refém” da debandada dos moradores e da degradação da região, colada na chamada “cracolândia”. O evento mostrou ainda que o pior já passou. O Liceu não fechará as portas, ao contrário dos temores que atingiram a comunidade escolar e deram o tom da cobertura da mídia no final de 2009.

Desde então, o cenário melhorou bastante. Suas calçadas não estão mais tomadas pelos usuários de crack, receberam iluminação e arborização, em uma verdadeira estratégia de “ocupação” sugerida por um especialista em segurança, levado à escola por ex-alunos. O orçamento foi equilibrado, parcerias estabelecidas e novos projetos e serviços engatilhados para 2011. “Houve um salto de conceito”, avalia o padre e diretor Benedito Nivaldo Spinosa, lembrando que isso de alguma maneira reavivou o espírito de professores, funcionários e alunos. Para quem circula em suas edificações em estilo predominantemente renascentista, a sensação que se respira é a do conforto proporcionado por uma escola de espaço privilegiado e bem cuidado, com jardins, amplas salas de aula, biblioteca, duas salas multimídia, salões de festas, cantina, refeitório, duas quadras externas e uma interna, laboratórios, o Museu de História e Ciências Naturais, a igreja (Santuário do Sagrado Coração de Jesus) e o Teatro Grande Otelo, com capacidade para 700 lugares.

O conjunto de 17 mil metros quadrados é tombado pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado) e ocupa o quarteirão formado pelas alamedas Dino Bueno, Glete, Barão de Piracicaba e Nothman. E para quem conversa com Benedito Spinosa, a sensação que se absorve é a da confiança no propósito de manter o Liceu vivo, revigorando a ocupação de seu espaço.

PODAR PARA FORTALECER

Graduado em três cursos de nível superior, especializado em Psicopedagogia e mestre em Educação e Comunicação, o padre revela cautela em relação à missão que lhe foi confiada pela Inspetoria dos Salesianos em 2007, quando assumiu a direção da escola. Ex-diretor de outras unidades da rede Salesiana e ex-assessor de comunicação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Benedito Spinosa diz apenas que chegou ao Liceu para “dar uma resposta sustentável para a escola”, com soluções “criativas” (como a mobilização da comunidade, a busca de receitas alternativas e a oferta de novos serviços), mas também drásticas, entre elas o fechamento do Ensino Médio (EM) e do turno vespertino.

Ao final de 2009, o Liceu dispensou 75 alunos do EM, testemunhou – como reflexo – a saída de outros tantos e suscitou textos nostálgicos na mídia, os quais tomavam o seu fim como um processo inexorável. “Os estudantes do 2º ano ficaram muito bravos comigo, não queriam ir embora”, lembra o padre. “Mas uma hora tínhamos que parar, porque o EM era deficitário; com esse corte, entramos em equilíbrio orçamentário”, revela. O Liceu permaneceu com a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, em regime parcial ou integral, e atraiu cerca de 100 novos estudantes com algumas ações, entre elas a ampliação da jornada integral. “É como cuidar de uma árvore, podando você revigora a seiva. O desânimo das turmas reduzidas do Ensino Fundamental no vespertino respingava sobre os demais e deixava no ar a incerteza se o colégio iria ou não fechar.

Nesse ano não se falou mais nisso”, compara o dirigente, animado com as perspectivas, já que o 7º ano está com 35 alunos e poderá, quem sabe, gerar duas salas futuras de 1º ano do Ensino Médio. “A gente começa a ter certa esperança”, comenta Benedito Spinosa, às voltas hoje com diferentes parceiros de negócios. Um dos principais é o Grupo Foco, que gerencia o projeto de teatro educativo na casa, cuida da locação dos espaços para ensaios de peças comerciais e acompanha as reformas nas instalações. O Liceu pretende oferecer três salas de espetáculos ao circuito das artes cênicas a partir de março de 2011, com nova iluminação e numeração das cadeiras na sala principal (Grande Otelo), construção de um espaço no porão (com palco central e arquibancadas laterais) e reforma de um de seus auditórios multimídia.

Orçado em R$ 100 mil, o contempla a instalação de elevador único para acesso aos três ambientes. Outra parceria foi estabelecida com a vizinha Porto Seguro, a partir de um convênio para descontos nas mensalidades dos filhos de seus funcionários e também com a locação de oito salas para cursos e treinamento da seguradora. Articulando-se com os lojistas das imediações e uma base móvel da Polícia Militar (já desmobilizada), a escola conseguiu afastar dezenas de usuários de crack que se instalavam embaixo das janelas das salas de aula, mantendo-os a uma distância mínima em torno de cem metros. O problema continua muito próximo, reconhece padre Benedito Spinosa. “Estão transferindo o usuário de lugar sem oferecer solução para isso”, ressalva. No entanto, o diretor acredita que os projetos de revitalização da área central poderão dar novo fôlego à instituição.

DA MOBILIZAÇÃO

Grandes aliados vieram também da imensa comunidade de ex-alunos, que hoje reúne 700 adesões na rede social do Orkut, mobiliza festas e jantares, rende artigos na internet, reportagens em programas de rádio e até mesmo documentários produzidos como trabalhos de conclusão de cursos de nível superior. Um grupo de pelo menos dez deles deu início ao Movimento Viva Liceu, capitaneado por Michel Porcino, jovem empresário da área de serviços graduado em Direito, que cursou ali o Fundamental II e o Ensino Médio, no período entre 1995 e 2001.

Na época, o número de estudantes já estava em declínio, por conta não apenas dos reflexos da região, mas da crise vivida pela maioria das escolas confessionais, da diminuição do número de filhos adolescentes entre as famílias de classe média e do aumento da concorrência na rede privada de ensino. Michel voltou a frequentar o Liceu no final de 2009, após tomar conhecimento, pela imprensa, da iminência de fechamento da escola. “Começamos a nos mobilizar de imediato”, relata o coordenador do Movimento, que ainda naquele ano criou o “Viva Liceu” (um dos motivos das comemorações da Ação de Graças de 27 de novembro passado) e conseguiu mobilizar um abraço dos ex-alunos em torno do colégio.

 Em abril de 2010, houve a primeira grande festa, a qual acabou servindo como palco para o reencontro de um casal de ex-alunos, que resolveram celebrar o matrimônio (cerimônia religiosa e recepção) nas dependências do Liceu. A construção de um novo site, com apoio dos Salesianos do Santa Teresinha, colégio da zona Norte de São Paulo, foi outro fruto do movimento. Agora, Michel e sua colega Claudia Soares de Oliveira, ex-aluna e ex-professora, buscam parceiros que banquem o “Empreendedorismo na Terceira Idade”, com o propósito de ensinar e capacitar pessoas com mais de 50 anos, moradoras da região, a abrirem seus negócios no entorno e, dessa forma, contribuir para a revitalização local.

Todos apostam nos projetos de intervenção urbana para a região, como o “Nova Luz”, um estudo da Prefeitura de São Paulo que prevê a desapropriação de imóveis e implantação de praças, calçadões e ciclovias, com vistas a atrair moradores. Também a inauguração da unidade do SESC Bom Retiro, vizinha ao Liceu e prevista para 2011, injeta ânimo nas mobilizações e parcerias. Comparando-se a situação atual do Liceu com a do Instituto Nossa Senhora Auxiliadora, instituição da rede Salesiana localizada no bairro do Belenzinho, zona Leste da cidade – e tema do Perfil da Escola da edição de novembro passado, Michel observa que o INSA encontra-se “um passo à frente do Liceu”, justamente porque a revitalização daquela região já está em pleno andamento, com muitos empreendimentos recentemente concluídos e habitados. “A situação do INSA é melhor que a do Liceu, pois estão num momento bem legal, de retorno dos moradores”, avalia, por sua vez, o diretor Benedito Spinosa, de olho nos edifícios residenciais que estão sendo erguidos em ritmo intenso na região da Barra Funda.

RECURSOS PEDAGÓGICOS

São, portanto, muitas as frentes de trabalho (e de esperança). Como profissional da comunicação, padre Benedito Spinosa desencadeou o processo de divulgação e mobilização, emplacando a bandeira “Viva Liceu”. Como gestor, lançou estratégias de negócios baseadas em parcerias, busca de novas receitas, lançamento de serviços (atividades nas férias, por exemplo), mas também cortes e ajustes. E como educador, introduziu aulas de Educação Financeira e Ecologia na matriz curricular do Fundamental II, entre outros. “A escola acontece na sala de aula, podemos pensar em milhares de estruturas e recursos, mas esta é que precisa funcionar”, destaca.

Benedito Spinosa colocou-se também como professor, assumindo as aulas de Filosofia do EFII. “Isso foi muito importante, porque me permitiu pensar mais nas condições de ensino”, diz. Como parte da Rede Salesiana de Escolas, o Liceu adota a chachamada Pedagogia Preventiva, desenvolvida pelo sacerdote e educador italiano Dom Bosco, no século XIX. “Ele foi uma espécie de Castelo Rá-tim-bum antes do tempo”, comenta Benedito Spinosa, já que o modelo adota as atividades lúdicas e circenses como recurso de ensino-aprendizagem. Assim, não é estranho que uma das principais apostas do Liceu esteja hoje no teatro, mas o balé, o esporte, o canto coral, a música e as artes plásticas figuram no cotidiano da rotina escolar, contando com um raro e precioso bem: a abundância de espaço.

Mais do que isso, entretanto, o que está em questão é sua tradição de ensino humanista, de uma instituição que foi pioneira ao acolher filhos de escravos, teve em seus quadros nomes fundamentais da cultura brasileira (como Monteiro Lobato e Grande Otelo), entre muitas outras personalidades, e ainda hoje, sob orçamento restrito, desenvolve projetos sociais, como o EJA (Ensino de Jovens e Adultos, com onze classes no horário noturno), uma creche para 210 crianças (em convênio com a Prefeitura) e o Abrigo Dom Bosco (para 56 catadores de papel na região).

Matéria publicada na Edição 64 de dez – jan/2011 da Revista Direcional Escolas

Fonte: http://www.direcionalescolas.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=484%3Aperfil-da-escola-liceu-coracao-de-jesus&catid=86%3Aedicao-64-dezjan-2011&Itemid=94&sms_ss=facebook&at_xt=4d221fb5806b5b31%2C0

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Liceu 125 anos – Depoimentos: Carlos Magno Gibrail

novembro 26, 2010

 

Para esquentar a festa de amanhã, vamos relembrar o depoimento prestado pelo ex-aluno Carlos Magno Gibrail no Dia do Ex-Aluno em abril deste ano.

Liceu Coração de Jesus – aprendendo a aprender

 por Carlos Magno Gibrail

“1952 – Adhemar Ferreira da Silva ganha medalha olímpica em Helsinque, cria a volta olímpica e é punido por Jânio Quadros pelas faltas na Prefeitura – a Willys Overland instala fábrica de veículos em SP – morre Eva Perón – Getúlio Vargas começa a ter problemas por envolvimento de seu pessoal com perseguição ao jornalista Carlos Lacerda – é lançada a camisa canarinho da seleção brasileira. 

1952 – ano em que iniciei meu aprendizado ao aprendizado, aqui no Liceu Coração de Jesus. Cujo começo, começa no começo do dia. A ordem unida inicial, com o cotidiano panorama geral, o assunto do dia e algum comentário especifico sobre normas, procedimentos e comportamentos, evidenciavam o treinamento norteando forma e conteúdo, método e conhecimento. Não há como esquecer o Pe. Avelino, nos sorrisos e nos puxões de orelha. Muito menos o momento de seu falecimento e a homenagem no clássico do Pacaembu, com um respeitoso minuto de silêncio antes do jogo do Corinthians, time que amava.

E o esporte, parte importante do cardápio salesiano, tendo o futebol como pano de fundo, reiterando a origem italiana da congregação, mas não negligenciando a ginástica, o vôlei e o basquete, foram partes essenciais para a formação equilibrada e saudável de corpo e mente.

A disponibilidade do teatro e do cinema geraram uma iniciação apaixonada pelo espetáculo. Teatro de variedades com encenações de musicais. Não dá para esquecer o sapateado dos “Pobres de Paris” e muito menos a comédia “Trigonometria”. Embora o duplo prazer do show quando apresentado no horário de aula, mesmo que fosse pela enésima vez, como a “Vida de Dom Bosco” ou a “Escalada do Everest”, era insuperável. No teatro do Liceu, ansiedade só na entrega das medalhas no final do ano.

Os desfiles pela cidade, desde cedo motivaram um espírito de civilidade, patriotismo e organização. O IV Centenário de São Paulo teve participação inesquecível da nossa banda musical, que mais tarde transformou-se em fanfarra. Motivados provavelmente pelo Liceu, São Bento e Arquidiocesano a fanfarra passou a ter numero crescente de participantes e levou o Liceu a importantes conquistas nos desfiles e competições escolares.

A intensa atividade política do país não ficou incólume ao Liceu e no curso científico o Grêmio Pe. José dos Santos monopolizava concorridas disputas eleitorais, com direito a campanhas, debates e muitos oradores. Tive o prazer de presidir um mandato do Grêmio.

De “saia justas” recordo no ginásio de termos deixado o professor de desenho sem ação. Ao entrar em aula foi ovacionado a troco de nada. Pura infantilidade coletiva.

Do lado docente, numa prova de Geografia, o Pe. Francisco, melhor conhecido por Pe. Chicão, dada a sua voz e volume, ao examinar em prova oral o Tiepo, habitual ocupante dos assentos do fundo da classe, leu a pergunta sorteada e indagou sobre o Trópico de Capricórnio, ao que ouviu que passava pela Rua Helvetia.

Pe. Francisco, diretor, escancarou o vozeirão e alardeou por toda a classe a resposta. Para sua surpresa, todos sabiam que na Rua Helvetia passa o Trópico de Ca pricórnio e, perceberam que menos ele. Incômoda afirmação que o Prof. Benedito teve que fazer ao Pe. Chicão. Numa época em que se lecionava e se estudava Latim, Espanhol, Francês, Inglês, História Geral, História do Brasil, Matemática, Física, Química, Biologia, Geografia, etc. e os exames eram escritos e orais, até que a vizinha Rua Helvetia poderia ficar no anonimato.

Falar, calar, praticar esporte, entender arte, teatro, cinema, política, ensinar – fizeram parte do acervo passado aos alunos nestes nove anos que estive aqui.  Não foi pouco.

Obrigado Liceu.”

Carlos Magno Gibrail, empresário, ex-aluno do Liceu, é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung: http://colunas.cbn.globoradio.globo.com/platb/miltonjung/

Liceu Coração de Jesus comemora 125 anos em São Paulo.

novembro 19, 2010

O tradicional colégio salesiano de São Paulo, Liceu Coração de Jesus, completa em 2010 125 anos de existência. Para celebrar esta data, importante no calendário de São Paulo, a instituição fundada por Dom Bosco organizará uma celebração no sábado, dia 27.11, no Teatro Grande Otelo (que foi aluno do Liceu), a partir das 9h30.

Estão convidados todos aqueles que valorizam a história desse colégio, e principalmente aqueles que fizeram e ainda fazem parte de sua história. O Liceu foi fundado em 1885 e é um dos colégios mais tradicionais de São Paulo.

Nesta mesma data, o Movimento Viva Liceu celebra 1 ano de existência.

O Convite:

Documentários defendem manutenção do Liceu Coração de Jesus, no centro.

novembro 9, 2010
Clipagem Liceu – Folha de São Paulo – 06/11/2010

JAMES CIMINO DE SãO PAULO

Duas turmas de formandos em jornalismo, uma da USP e outra da Unip, resolveram fazer documentários sobre a história do Liceu Coração de Jesus, escola do centro de SP que completou 125 anos neste ano e vem sendo “engolida” pela cracolândia. Em 2009, a Folha relatou que a escola, onde estudou o escritor Monteiro Lobato, fecharia suas turmas de ensino médio por falta de alunos.

Gabriel Ribeiro, 22, da Unip, foi aluno do Liceu e, ao ler a reportagem, escolheu o assunto para seu trabalho de conclusão de curso. O documentário, produzido por ele e mais três, chama-se “Liceu: Ontem, Hoje e Sempre”. “Fiquei meio chateado ao saber e resolvi fazer a minha parte”, conta. Já o grupo de seis alunos da USP que produziu “No Sagrado Coração de São Paulo” disse ter tido dificuldade para filmar o entorno. A maneira para contornar a falta de receptividade dos “noias” foi fazer amizade com eles.

MELHORA

O advogado Michel Porcino, que criou com ex-alunos e ex-professores o movimento “Viva Liceu”, diz que a situação já melhorou. Segundo ele, também um ex-aluno, há cinco meses houve retirada de traficantes e usuários de crack. “O colégio aproveitou e investiu em arborização e iluminação.” O ensino médio, no entanto, deverá voltar em dois ou três anos. A administração do liceu pretende concentrar o trabalho no ensino fundamental para, depois, abrir novas turmas do médio, desta vez com mais alunos. FOLHA.com Assista aos documentários folha.com.br/ct824996

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Comentários Viva Liceu:

Parabenizamos os estudantes de jornalismo da UNIP e da USP que ao longo deste ano mergulharam no cotidiano dos alunos do Liceu Coração de Jesus, para descobrir mais sobre sua história, tradição, dificuldades e alternativas, como as que propomos com o Movimento Viva Liceu. Ambos os documentários foram ricos, e nós, que acompanhamos parte das gravações, podemos imaginar o esforço despendido neste projeto.

Agradecemos a Folha de São Paulo, em especial ao James Cimino, que motiva o Movimento Viva Liceu a continuar luta em defesa de uma instituição tão importante na história de São Paulo, e ainda mais importante para as futuras gerações de estudantes.  Precisamos de colégios que além de que informação, possam contribuir para FORMAÇÃO dos seus filhos.

Neste sentido que acreditamos na força que o Liceu possui, já que consegue, com maestria, unir conhecimento com a transmissão de valores, para formar cidadãos éticos, preocupados com sustentabilidade e atualizados com que acontece na sociedade. 

Festa dos Ex-Alunos do Liceu Coração de Jesus – Ontem, Hoje e Sempre (24.04)

abril 20, 2010
Convite Especial – Celebração do Dia do Ex-Aluno do Liceu Coração de Jesus: Ontem, Hoje e Sempre.

Aos Eternos Liceanos:
 
Como parte das comemorações dos 125 anos do Liceu Coração de Jesus, temos o imenso prazer de convidar os ex-alunos, ex-professores, padres, alunos, pais, professores, funcionários e toda comunidade salesiana para celebrar o Dia do Ex-Aluno no Liceu. Será uma confraternização única, reunindo todas as gerações daqueles que ali passaram e que guardam boas lembranças dessa escola em seus corações.

Não percam esta oportunidade de rever antigos amigos e visitar aquela que foi, ainda é, e sempre será a sua segunda casa! Tragam suas famílias e seus amigos!

É importante que todos estejam no Liceu às 10h30, no Salão dos Ex-Alunos, para o início da celebração. Logo após, os convidados participarão do churrasco e de torneios esportivos de confraternização. Haverá Feira de Artesanato, organizada mensalmente pelo Programa Foco, e gravação de depoimentos sobre o Liceu.

IMPORTANTE: Nesse dia, arrecadaremos doações* a serem destinadas às vítimas das enchentes do Rio de Janeiro.
 
Ingresso Simbólico: Pedimos que tragam fotos antigas, jornais do colégio, uniformes antigos e outros itens que possam ser doados (ou emprestados) para uma exposição na grande festa de 125 anos do Liceu, a ser realizada no próximo mês de outubro. O churrasco e complementos (refrigerante, doces e salgados) serão vendidos por unidade. Não será vendida bebida alcoólica. 
 
Abaixo, programação completa:
 
 

  • Até às 10h30 – Arrecadação de doações* às vítimas das chuvas no RJ e entrega de materiais históricos do Liceu (fotos, uniformes, jornais e outros).
  •  

  •   10h30 às 12h00 – Celebração do Dia do Ex-Aluno no Salão dos Ex-Alunos:

 

– Abertura Oficial do Dia do Ex-Aluno
– Homenagem aos Alunos
– Homenagem e Reconhecimento aos Professores.
– Oração
 – Coral de Alunos do Liceu
– Movimento Viva Liceu
– Sorteio de Prêmios e mais…

   

  • 12h00 às 16h00 – Momento de Confraternização:
  • – Churrasco de integração
    – Torneios de Futsal, Tênis de Mesa, Pebolim e Damas**

      

     – Gravação de depoimentos para documentário dos 125 anos de Liceu
    Feira de Artesanato, organizada pelo Programa Foco

    *Poderão ser doados alimentos não-perecíveis, produtos de limpeza e de higiene pessoal, garrafas ou galões de água potável, itens de vestuário, calçados e roupas de cama.
    ** Inscrevam-se nas competições individuais de damas, tênis de mesa e pebolim e também no torneio de futsal, enviando nomes dos ex-alunos integrantes para movimento@vivaliceu.org 

 A participação é aberta a toda comunidade. 

 Liceu Coração de Jesus, Movimento Viva Liceu e União dos Ex-Alunos

Poesia #3 – Liceu Coração de Jesus

abril 19, 2010
por Norival do Amaral (Prof. Amaral)
 
“O salvador do mundo não é vc , não sou eu.
 
Somos nós… velhos, usados, surrados,  maltratados pelo tempo.
 
Fomos nós, velhos professores que fincamos raízes e dedicamos nosso sangue e juventude.
 
Criamos gerações, criamos objetivos.
 
O Liceu sempre foi jovem, à frente de seu tempo, com seus moleques correndo pelo pátio, se escondendo entre colunas, chutando bolas nos diversos campos de futebol (MENORES, MÉDIOS E MAIORES).
 
O LICEU um mundo de  moleques do internato, do semi e mais tarde das Meninas que chegaram para ficar e foram fazendo nosso LICEU ficar cada vez mais bonito.
 
O tempo passou e nós estamos indo, mas deixamos gerações formadas em nossas aulas, e que irão pelo mundo amparadas pela cultura salesiana que nós transmitidos, independentemente de tudo e de todos.”

Poesia #2 – Liceu Coração de Jesus

abril 19, 2010

Por João Alberto Di Sandro

Meu Liceu! A imagem de Cristo a nos abençoar,
Com os braços abertos aos jovens convidando,
Para que em suas salas possam vir a estudar,
E enfrentarem na vida o que for encontrando.

Ai, meu Liceu querido! Onde por anos pude estar
Junto aos Salesianos, de Dom Bosco ensinando,
Que na vida só não vence quem não aproveitar
Os bons ensinamentos que eles foram repassando.

Assim meu Santuário, contigo aprendi a superar
As adversidades, que muitos me foram colocando.
Foste e ainda és para mim um amigo a me amparar.

Hoje já velho, sentindo que a idade vem avançando,
Ainda tenho no velho “Cristo Dourado” o meu lar,
A escola, onde passei parte da juventude estudando.

Bravo Roberto Tibiriça! Viva Liceu, Viva Tibiriça, ex-aluno do Liceu Coração de Jesus.

abril 17, 2010

Como Mote aos 125 anos de Liceu e aproveitando a Festa dos Ex-Alunos de sábado (24.04), vamos aos poucos falando dos filhos do Liceu, seus caminhos e suas histórias. Para abrir esta série, vamos começar por grande ex-aluno do Liceu e eterno salesiano, o Maestro Roberto Tibiriça.

“Há certo tempo em nossas reuniões do Movimento Viva Liceu, um grande professor da casa, Walter Martinez , vinha comentando sobre o trabalho desenvolvido por Roberto Tibiriça, ex aluno do Liceu Coração de Jesus. Confesso que, inicialmente, não sabia de sua história e tampouco da sua importância para a música brasileira. Então tive uma feliz coincidência. Estava em Belo Horizonte em 12.04.2010 quando vi na Globo uma chamada “Não perca amanhã, apresentação da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, no Palácio das Artes, com a regência do Maestro Roberto Tibiriça”. Maravilha, seria a oportunidade de conhecer o trabalho de quem há tanto tempo ouvira falar. No dia seguinte comprei meu ingresso e fui ao Palácio das Artes, um teatro muito bonito no centro de BH, com capacidade para 1.700 pessoas, idealizado por Juscelino Kubitscheck. Com o teatro cheio, entra em cena o Regente Convidado da noite, Tibiriça e a excelente orquestra mineira apresentando Tocata e Fuga em ré menor (http://www.youtube.com/watch?v=_pY08e_tdtA&feature=related).

Fiquei extasiado ao ver a atuação de Roberto. Durante toda a apresentação, foquei minha atenção apenas nele e no modo como conduzia os mais de 80 integrantes da Orquestra Filarmônica, até porque estava ali para prestigiar o trabalho de um ex-aluno liceano. Achei a apresentação maravilhosa. Minha humilde opinião, como leigo que sou, é que Tibiriça conduziu a orquestra de maneira brilhante e envolvente, um artista extraindo o melhor de outros artistas. Numa combinação de toques suaves e bruscos, acelerados, o grande maestro ditava as sinfonias que soavam harmonicamente dos violinos, flautas, violoncelos, clarinetes, harpa e tantos outros instrumentos tocados pelos músicos, atentos aos rápidos movimentos do regente. A música me fazia fervilhar idéias na cabeça. O paralelo com a vida é inevitável: somos parte de um todo, devemos estar atentos a tudo, agindo com firmeza e em harmonia; somos um conjunto em que todos dependem do outro para que a “nota” seja perfeita. Assim também são as empresas, que conduzidas por seu CEO, dependem da atuação conjunta e integrada de cada área com o objetivo comum de obter o sucesso. O interessante era ver o modo como Tibiriça se expressava ao conduzir a orquestra. Com sentimentalismo, por vezes parecia que dançava conforme a música. Parecia que era ele, e não os seus pares, que estava tocando. Às vezes, tinha a impressão de que ele era um pintor que ia modelando um belo quadro com seu pincel.

Bravo, Bravo, Bravoo!! Viva Liceu, Viva Roberto Tibiriça! Torço para que um dia ele possa apresentar seu trabalho a outros alunos e ex-alunos como eu, que saí emocionado da apresentação. Uma obra prima! Desejo muito sucesso como Regente Titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Aos leitores desse blog, faço um apelo: Roberto está concorrendo ao Prêmio Carlos Gomes como regente pelo trabalho desenvolvido na comunidade de Heliópolis dentro do Instituto Buccarelli (Vejam o vídeo http://www.youtube.com/watch?v=mklhp35RJww).

 Votem aqui: ttp://www.premiocarlosgomes.com.br/popular/votopopular.asp ”

 Mais sobre Roberto.

Atual ocupante 5ª Cadeira da Academia Brasileira de Música, fundada por Villa Lobos. Nasceu de uma família de músicos, com influências de sua vó e mãe, ambas pianistas. No Liceu, fugia das aulas para ver o maestro tocar o órgão na Igreja. Vendia livros com a Suzana Vieira e outra atriz para a Editora Abril. Com poucas composições próprias, Roberto Tibiriça ganhou um concurso realizado no Liceu Coração de Jesus quando ainda era muito jovem, por um Hino feito na época. Mais informações:

http://www.institutobaccarelli.org.br/sinfonica/equipe.integrante.php?cdTexto=499

 www.robertotibirica.com.br

 *Depoimento emocionado escrito por outro ex-aluno, Michel Porcino. Vejam este vídeo e digam se houve algum exagero… http://www.youtube.com/watch?v=vwTYPZ04OIc&feature=related

1º Boletim Viva Liceu

abril 13, 2010

Para melhor visualização e leitura, clique aqui: http://www.flamah.com/vivaliceu/boletim_01_10.html

Revitalização do Centro de SP! Como o bairro Campos Elíseos será afetado?

março 4, 2010

Matérias interessantes sobre revitalização no Centro de SP.

1. Kassab anuncia moradia para artistas; projeto cria 2.500 residências no centro

Fonte: Folha de SP – Folha Online JULIANNA GRANJEIA
Colaboração para a Folha Online http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u689325.shtml

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), anunciou na manhã desta quinta-feira a destinação de um prédio na avenida São João para a moradia de artistas com baixa renda. A medida faz parte do Programa de Habitação e Requalificação do Centro – Renova Centro, que irá desapropriar 53 prédios na região central da cidade para a criação de cerca de 2.500 unidades habitacionais. O antigo hotel Cineasta será reformado, e seus 58 apartamentos serão comercializados por meio de locação subsidiada pela Prefeitura de São Paulo.

A atriz Nicete Bruno compareceu ao evento, representando o Sated (Sindicato dos Artistas e Trabalhadores em Espetáculos de Diversão). Ela afirmou que o local é uma reivindicação antiga da classe. “É a oportunidade de criar em São Paulo aquilo que há tanto tempo nos desgostava. Irá abrigar artistas que não trabalham mais individualmente, mas ainda têm possibilidades de fazer um trabalho coletivo com jovens”, disse Nicete. Kassab afirmou que, caso o número de artistas interessados na moradia ultrapasse o número de unidades destinadas no prédio do hotel, outro edifício deve entrar no programa. “Queremos trazer os artistas de volta ao centro de São Paulo”, disse o prefeito.

Renova Centro

Dos 53 decretos necessários para as desapropriações, dez já foram publicados em “Diário Oficial” e 43 serão publicados na edição desta sexta-feira (5). Os locais exatos dos prédios que serão desapropriados e reformados para moradia ainda não foram informados para evitar a invasão dos imóveis. De acordo com a legislação, a desapropriação só pode ser realizada em edifícios vazios. Segundo Ricardo Pereira Leite, presidente da Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação), o último levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), feito no ano 2000, revelou que São Paulo tinha cerca de 400 mil imóveis desocupados. O estudo feito pelo governo para a realização do projeto mostra que as regiões mais habitadas na cidade são diferentes das regiões que oferecem emprego. “Na República, por exemplo, existe quatro empregos para cada habitante, enquanto que na Cidade Tiradentes tem 0,01 vaga de emprego para cada pessoa. São cerca de 300 mil viagens diárias de outras regiões de São Paulo para a Sé”, afirmou Leite. Entre 1991 a 2009, 150 mil moradores deixaram o centro de São Paulo, segundo o presidente. “Trazer moradores de volta para o centro pode reduzir em 7.000 viagens de ônibus, metrô e trem por dia”, explicou Leite.

O Renova Centro foi elaborado em parceria com a FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP (Universidade de São Paulo) e abrange o Parque Dom Pedro 2º, Vale do Anhangabaú e a região da cracolândia, rebatizada pelo governo de Nova Luz. O professor de arquitetura da FAU Paulo Bruna explicou, na manhã desta quinta, que o edifício Riachuelo, reformado no ano passado, é referência para o método de requalificação que será usado nos prédios desapropriados. A reforma dos imóveis deve durar entre três e cinco anos. Os apartamentos terão entre 30 e 60 metros quadrados. As unidades serão alugadas, por meio de locação social (subsidiada pela prefeitura) e vendidas. A Caixa Econômica Federal fará o financiamento das unidades. Também existe a possibilidade de alguns imóveis entrarem do programa Minha Casa Minha Vida, do governo federal. O investimento estimado nas reformas é de aproximadamente R$ 400 milhões, que devem ser provenientes da própria Prefeitura de São Paulo e da Caixa Econômica Federal.

2. O projeto de revitalização do Centro de São Paulo e suas contradições.

 Fonte: Marana Borges, da USP Online http://www.aomestre.com.br/mnd/centro_sp.htm

O projeto de revitalização do Centro de São Paulo, empreendido pela atual administração municipal, reacendeu um debate entre urbanistas e sociólogos quanto às formas de recuperação do espaço metropolitano sem que haja segregação social. A transformação dos quase 25 quarteirões que abrangem a “Cracolândia” (próxima à Estação da Luz) em zona de incentivo fiscal possibilita que centenas de imóveis da região possam ser desapropriados e vendidos para a iniciativa privada, que terá desconto de até 60% nos tributos municipais. Além disso, a proposta de demolição do Minhocão, a abertura de calçadões para o fluxo de carros, a construção de rampas ásperas no túnel que leva à Avenida Paulista, a reforma da Praça da República e da Sé pretendem, segundo o governo municipal, dissociar o Centro da imagem de pobreza e abandono. Nos anos 1950, a construção do Conjunto Nacional (na Avenida Paulista), juntamente com a do edifício Copan (na Praça da República), ambos símbolos de potência econômica, mostraram que era possível uma nova localização para grandes edifícios na cidade. Com a chegada de novo capital especulativo e de frentes de desenvolvimento urbano, a região central precisou competir por novos investimentos. Houve um gradual envelhecimento de estoque imobiliário e pouca renovação de ofertas. A partir de então, o investimento privado no Centro foi relativamente pequeno.

O empobrecimento de regiões antes nobres é um fenômeno comum. Para se valorizar, o capital imobiliário tem que se deslocar e investir em novos empreendimentos. Nas últimas três décadas houve um deslocamento imobiliário para outras áreas, e atividades mais nobres foram migrando para a região das avenidas Paulista e Brigadeiro Faria Lima e, mais recentemente, para a Avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini (Brooklin). “A decadência do Centro acabou permitindo a vinda de pessoas menos abastadas. Por isso a sua recuperação pode ser um grande problema social”, diz Ciro Biderman, economista e pesquisador do Laboratório de Urbanismo da Metrópole (Lume) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Segundo ele, o aquecimento econômico da região causará um aumento do preço dos imóveis e, conseqüentemente, dos aluguéis. “A população local não terá como arcar com a alta do custo e irá para lugares cada vez mais afastados”, afirma.

A “gentrificação”
A história do urbanismo mostra que toda intervenção urbana provoca mudanças no valor da terra e, quase sempre, quem sai perdendo é a população mais pobre. Geralmente o processo se dá pela valorização de alguma área, o que leva à substituição da população local por outra de maior poder aquisitivo que pode bancar o alto custo dos imóveis e dos serviços que se instalam na região. Esse fenômeno é conhecido como ‘gentrificação ‘. “É uma das maiores contradições do urbanismo. Desde o século XIX, quando a renovação das cidades passou a ser uma prática constante, se busca formas de atenuar o problema”, afirma Regina Meyer, coordenadora do Lume. Outras obras provocam o fenômeno inverso, isto é, afastam os mais ricos e criam situações de empobrecimento. É o caso do Elevado Costa e Silva, popularmente chamado de Minhocão, que desqualificou os arredores da Avenida São João. No entanto, o sociólogo Álvaro Comin, presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), afirma que revalorizar uma região não significa necessariamente expulsar a população local: “há iniciativas empresariais que direcionam o espaço para empresas, fazem planos para o capital. Elas têm como conseqüência acentuar o grau de segregação social”. Como exemplo Comin cita as experiências realizadas em Londres e Nova York. Em Barcelona, porém, a prefeitura arcou com os custos da recuperação urbana, investindo em habitação social e evitando que a população de baixa renda tivesse que se deslocar. O patrimônio arquitetônico era muito valioso e sua conservação muito cara. “É um tipo de investimento muito diferente, com preocupação social muito maior e tenta vocacionar a região para um misto de habitação social e turismo”.

 Soluções
Para Regina Meyer, todo debate da revitalização do Centro está no bojo de uma discussão maior: a própria existência da pobreza. “Os miseráveis ocupam os lugares que vão ‘sobrando’ nas cidades. Algumas vezes a ocupação passa despercebida, outras vezes é visível e então o lugar é visto como ‘invadido’. São sempre lugares que de alguma forma oferecem aos miseráveis alguma forma de contato e participação na riqueza; recolhem-se as migalhas do excesso que ficam presentes nestas sobras urbanas”. É por isso que, segundo os especialistas entrevistados, não basta desapropriar cortiços e edifícios irregulares para acabar com a pobreza e a mendicância. Álvaro Comin aponta esta contradição: “é quase uma condição: se quer tornar chique um lugar, expulsam-se os pobres, mas ao atrair os ricos também os pobres são atraídos.”

 A questão se complica mais se pensarmos na lógica da pobreza específica do Centro. O perfil dos moradores de rua de São Paulo tem mudado na última década. Hoje grande parte dos 12 mil moradores das ruas paulistanas possuem casa ou família mas, por diversas razões, optam por viver na rua. Além da violência familiar e alcoolismo, outro fator que os levam a fazer esta opção – e rejeitar os albergues – é a proximidade aos “pontos” de trabalho informal. “Os moradores de rua se localizam na cidade em função da economia de dinheiro e tempo que conseguem quando podem dispensar o transporte”, enfatiza Regina. Principalmente aqueles que são pedintes necessitam de um lugar que tenha contingente de riqueza e no qual possam passar despercebidos. “Um morador de rua nos Jardins tem que enfrentar uma grande pressão dos moradores do bairro. Como o Centro é um local com alta circulação de pessoas, fica mais fácil”, diz o economista Ciro Biderman. Quando perguntados sobre qual a melhor forma de solução para revitalizar a área central da cidade sem segregar classes sociais, os entrevistados são unânimes: o compromisso em realizar projetos habitacionais voltados para os mais pobres e a atenção ao novo perfil dos moradores de rua. Segundo Biderman, no entanto, “subsidiar conjuntos habitacionais só funcionaria se a variação no preço dos imóveis não for significativa”. Caso contrário o proprietário pode vender a preço de mercado um apartamento que comprou com subsídios. Muitas das áreas centrais são consideradas zonas especiais de interesse social e possuem infra-estrutura urbana e serviços. Por lei, nesses terrenos ou imóveis subutilizados devem ser construídas ou reformadas moradias para a habitação de interesse social, bem como mecanismos de geração de emprego e renda.

Revitalização e Periferização
Falar em revitalização do Centro de São Paulo soa estranho para quem está acostumado com a efervescência cultural da região. “Este termo faz parecer que não há vida atualmente, o que não é verdade”, diz Ciro Biderman. Andando pela Praça da Sé, podemos ver apresentações de teatro mambembe, mágicos encenando seus atos lúdicos, cantores atraindo a multidão. A instalação de outros centros de animação e cultura, como o SESC e o Centro Cultural Banco do Brasil deram impulso ainda maior à diversidade cultural. As investidas do poder público na área mudaram o cotidiano das pessoas. Durante a década de 1990 os governos estadual e municipal levaram secretarias de governo para o Centro. São hoje mais de 10 órgãos públicos e 12 mil funcionários instalados na região central. Apesar dessas investidas positivas, estudo do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE mostra que em um ano a proporção de pobres na região metropolitana de São Paulo passou de 41% para 41,6%, o que representa uma diferença de 214 mil pessoas. Essa realidade vai de encontro à tendência de queda da pobreza no Brasil, que diminuiu de 44% em 1992 para 33,2% em 2004. Porém, a queda foi mais acentuada nas áreas rurais. No mesmo período a indigência no país caiu de 16,6% para 8%. “Em São Paulo os pobres vão ficando cada vez mais em circuitos periféricos. O que se ganha com um menor custo imobiliário se perde com transporte, já que eles vêm de longe para as áreas centrais”, afirma Comin. Para ele, habitações populares nas áreas hoje esvaziadas do Centro ajudariam a conter o processo de periferização.

3. Prefeitura desapropria 53 imóveis dando início a programas de requalificação urbana do Centro.
Bruno Azevedo do G1, em São Paulo

A Prefeitura de São Paulo desapropriou 53 imóveis dando início a uma revitalização imobiliária do centro da capital. O Renova Centro – Programa de Habitação e Requalificação Urbana, da Cohab, irá reformar edifícios comerciais, residenciais e antigos hotéis da região central que darão origem a 2.500 moradias. O custo do programa, lançado nesta quinta-feira (4), é de R$ 400 milhões e deverá estar concluído em três anos. Segundo o presidente da Cohab, Ricardo Pereira Leite, o objetivo é trazer de volta para o Centro a população que se mudou para outras regiões, mas que continuam trabalhando nas imediações da Sé e da República, onde estão a maior parte dos edifícios desapropriados. De 1991 a 2009, 150 mil moradores deixaram o Centro de São Paulo. “O que aconteceu em São Paulo foi habitação onde não tem emprego e emprego onde não tem habitação. Trazer as pessoas de volta para o Centro pode significar 7 mil viagens de ônibus, metrô e trem a menos por dia”, explicou Leite. Os imóveis desapropriados já passaram por vistoria e foi feito um estudo arquitetônico para analisar a viabilidade da reforma. Dos 53 imóveis desapropriados, 16% eram hotéis, 61% de uso comercial e 23% eram prédios residenciais. Esses imóveis possuíam débitos de R$ 8 milhões com a Prefeitura relativos ao IPTU. As novas moradias deverão ser destinadas a famílias com renda mensal de até 10 salários mínimos e deverão custar entre R$ 2 mil e R$ 2,5 mil o metro quadrado.

Sem segurança
O anúncio do Renova Centro foi feito, porém, sem uma política clara de segurança pública para a região central de São Paulo, conhecida pelo risco de roubos e assaltos. “Incentivar a moradia no Centro traz comércio e outras atividades que deverão gerar segurança com a circulação de pessoas”, disse o prefeito Gilberto Kassab (DEM) sem, contudo, detalhar um programa de segurança para a região. Ainda de acordo com o prefeito, o programa deverá tornar o Centro uma nova área de investimento do mercado imobiliário.

Prédio dos artistas
Um dos edifícios desapropriados se transformará num abrigo para artistas na terceira idade, nos moldes da Casa dos Artistas, do Rio de Janeiro. Segundo Kassab, se necessário, a prefeitura poderá destinar um outro imóvel para abrigar mais artistas idosos. A desapropriação será publicada no Diário Oficial do município nesta sexta-feira (5). Serão 43 decretos. Os outros dez imóveis restantes já haviam sido desapropriados.

Fonte: G1 – 04/02/2010 http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1476697-5605,00-PREFEITURA+LANCA+PROGRAMA+DE+REVITALIZACAO+IMOBILIARIA+DO+CENTRO+DE+SP.html